Católica e Evangélica

por Pr Gelson Piber, pastor na ICM de Niterói
Igreja da Comunidade Metropolitana do Brasil (www.icmbrasil.org)
Curso para Novos Membros da Igreja da Comunidade Metropolitana de Niterói, RJ: Módulo Dois

Na Igreja da Comunidade Metropolitana, as vezes se coloca este conflito: é uma "igreja evangélica" ou é uma "igreja católica"? Respondemos geralmente que é os dois, que ela contempla as duas faces da manifestação da fé em Jesus Cristo, Senhor, Mediador e Redentor. Mas é necessário que compreendamos o significado destes termos e o que eles expressam.

A realidade das pessoas que congregam em uma ICM é a mais diversificada possível, e isto é um dom de Deus, por isso nenhum grupo pode pretender prevalecer sobre o outro, mas conhecer as tradições do outro, sua maneira de orar e adorar, sua maneira de viver a fé e perceber que no outro Deus também se manifesta e me proporciona uma oportunidade de conversão e crescimento na fé, possibilitando assim, talvez a única experiência que eu posso ter de Deus e um encontro inequívoco com ele mesmo.

A catolicidade da Igreja é sinal de Pentecostes: a nova comunidade que fala, e entende, em todas as línguas e une todos os povos em um único povo evangélico, isto é, seguidor do Evangelho de Jesus Cristo. Ser católico é ser inclusivo, é incluir as diversidades, as diferenças e sentir-se um, unido, perceber as diferenças, mas experimentar a unidade. Pessoas de numerosas culturas e tradições irmanam-se e colocam-se lado a lado, diante de Jesus Cristo. Os estrangeiros se converteram em amigos; superando todos os conflitos, reconhecemo-nos irmãos e irmãs. Assim se cumpriu a missão de São Paulo, que estava convencido de ser "ministro de Cristo Jesus para com os gentios, exercendo o sagrado ofício do Evangelho de Deus, para que a oferenda dos gentios, consagrada pelo Espírito Santo, agrade a Deus" (Rm 15, 16).

Ser católico, é pregar o Evangelho para todas as pessoas em todos os lugares, em todos os tempos, como Jesus mesmo nos mandou (cf Mc 16, 15).

Catolicidade na Igreja é a missão e o testemunho para todos e todas, transformando a humanidade em uma glorificação viva de Deus. Catolicidade não só expressa uma dimensão horizontal, a reunião de muitas pessoas na unidade; também entranha uma dimensão vertical: todos juntos, diversos mas incluídos, olhamos para Deus e seguimos Jesus Cristo, consolados pelo Espírito Santo, vivendo um só evangelho e tendo uma vida evangélica.

Ser católico é ser universal, é perceber as diferenças, mas compreender que a salvação também é destinada ao diferente, nas suas particularidades e que cada um e cada uma, na sua maneira pode ter uma experiência de encontro com Jesus Cristo, na fé, fazendo a Sua vontade e colocando em prática o maior mandamento: "o amai-vos uns aos outros" (cf Mt 22, 39; Mc 12, 31), que é ser evangélico. Ser católico é compreender a profecia: "Voltarão ao Senhor de todos os confins da terra; em sua presença se prostrarão as famílias dos povos" (Sal 22, 27). O inicio deste Salmo fora dito por Jesus na cruz (cf Mc 15, 34), agora, Ele ressuscitou, nós devemos completá-lo anunciando a todos os povos essa vitória de Deus, cumprindo assim a promessa com a qual se conclui o Salmo.

Catolicidade significa diversidade, multiplicidade que se transforma em unidade; unidade que, apesar de tudo, continua sendo multiplicidade. Unidade significa evangélico. As palavras de São Paulo sobre a universalidade da Igreja explicaram-nos que desta unidade forma parte a capacidade das pessoas em superar suas diferenças, reconhecendo-as e respeitando-as, para olhar para o único Deus, ir alem das diferenças para olhar juntos, unidos para Deus, é ser evangélico.

Santo Irineu, no século II, expressou de um modo muito interessante este vínculo entre diversidade e unidade: "a Igreja recebeu esta pregação e esta fé, e, estendida por toda a terra, com esmero a custodia como se habitasse em uma só família. Conserva uma mesma fé, como se tivesse uma só alma e um só coração, e a prega, ensina e transmite com uma mesma voz, como se não tivesse senão uma só boca. Certamente, são diversas as línguas, segundo as diversas regiões, mas a força da fé em Jesus Cristo vivo, é uma e a mesma. Assim como o sol, que é uma criação de Deus, é um e o mesmo em todo o mundo, assim também a luz do testemunho do Evangelho brilha em todas partes e ilumina todos os seres humanos que querem vir ao conhecimento da verdade" (Adversus haereses, I, 10, 2).

A unidade dos homens em sua multiplicidade foi possível porque Deus, o único Deus do céu e da terra, manifestou a nós; e em Jesus Cristo fez-nos ver seu rosto, revelou a si mesmo. Esta verdade sobre a essência de nosso ser, sobre nossa vida e nossa morte, verdade que Deus fez visível, une-nos e converte-nos em irmãos e nos torna evangélicos. Catolicidade=diversidade e evangelicalismo=unidade vão juntas. E a unidade tem um conteúdo: a fé que os Apóstolos nos transmitiram de parte de Cristo.

Poderíamos resumir que catolicidade é a diversidade, evangélico é a unidade, a fé no único Evangelho de Jesus Cristo. "Porque onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí, estou Eu no meio deles" (Mt 18, 20), se são duas pessoas, são diferentes; perceber a diferença, reconhecer, respeitar, conviver, isto é a catolicidade, mas estar unido, adorando o único Senhor, é ser evangélico e assim, desta maneira, ser católico e ser evangélico nos remete ao ser ecumênico, que nada mais é do que conviver com as diferenças.

Cristo em sua dignidade de Senhor da terra, mas também como anunciador do Evangelho é o "Eu sou o que sou"! (Ex 3, 14), este misterioso nome de Deus, proposto na Antiga Aliança, reencontra-se em Jesus Cristo Senhor: tudo o que existe vem dele; ele é a fonte originária de todo ser. E por ser único, também está sempre presente, sempre está perto de nós e, ao mesmo tempo, sempre nos precede, como "sinal" no caminho de nossa vida; mais ainda, ele mesmo é o caminho.

Dizemos que catolicidade=diversidade da Igreja e unidade=Evangelho=fé em Jesus Cristo, da Igreja, vão juntas. Ambas dimensões são percebidas nas figuras dos santos Apóstolos: eles eram diferentes, mas unidos no testemunho que deram da Ressurreição do Senhor.

O Senhor instituiu doze Apóstolos, como eram doze os filhos de Jacó, assinalando-os dessa maneira como iniciadores do povo de Deus, o qual, sendo já universal, adiante abarca todos os povos. Marcos diz-nos que Jesus chamou os Apóstolos para que "estivessem com ele e também para enviá-los" (Mc 3, 14). Quase parece uma contradição. Nós diríamos: ou estão com Ele ou são enviados e se põem a caminho. Os anjos nos podem ajudar a esclarecer essa aparente contradição. Eles são sempre enviados e, ao mesmo tempo, estão sempre na presença de Deus: "Onde quer que sejam enviados, onde quer que vão, caminham sempre na presença de Deus" (Gregório Magno, Homilia 34, 13).

Com isso, não queremos esquecer que o sentido de todas as diferenças e diversidades na Igreja, com seus variados dons e ministérios, a catolicidade da Igreja é, no fundo, que "cheguemos todos à unidade na fé e no conhecimento do Filho de Deus, ao homem perfeito, à medida de Cristo em sua plenitude", de modo que cresça o corpo de Cristo "para construção de si mesmo no amor" (Ef 4, 13 e 16), que é ser evangélico.

Cristianismo significa "vida comunitária," uma vida em comum. Os cristãos e as cristãs têm que ver a si próprios como irmãos e irmãs (cf Mc 3, 34), como membros de uma comunidade, unidos muito próximos. Pode-se perguntar: em exatamente o que essa unidade e junção dos muitos está baseada e enraizada? Qual é o poder que traz muitos a se juntarem e permanecerem unidos uns com os outros? É isso meramente um instinto social, algum poder de coesão social, um ímpeto de afeto mútuo, uma amizade muito grande, ou qualquer outra atração natural? Está essa unidade baseada simplesmente em unanimidade, em identidade de pontos de vista e convicções? Resumindo, é a Comunidade Cristã, a Igreja, meramente uma sociedade humana, uma sociedade de homens? Seguramente, a clara evidência do Novo Testamento nos leva a muito além desse nível puramente humano. Os Cristãos são unidos não somente entre si mesmos, mas antes de tudo eles são um-em Cristo, e somente essa comunhão com Cristo faz a comunhão dos homens possível-Nele, isto é o ser evangélico da Igreja. O centro da unidade é o Senhor, e o poder que efetua e ordena essa unidade é o Espírito. Os cristãos e as cristãs são constituídos nessa unidade por desejo divino; pela Vontade e Poder de Deus, na vivencia evangélica. A unidade deles e delas vem de cima. Eles são um só em Cristo, como aqueles que renasceram Nele, "arraigados e sobreedificados Nele" (Col. 2, 7), que por um Espírito foram "batizados formando Um Corpo" (1Cor 12, 13). A Igreja de Deus foi estabelecida e constituída por Deus através de Jesus Cristo, Nosso Senhor: "ela é Sua própria criação pela fé e pelo batismo". Então não há sociedade humana, mas sim uma "sociedade divina," não uma comunidade secular, que ainda seria "desse mundo," ainda medida, experimentada como outros grupos humanos, mas uma comunidade sagrada, que, intrinsecamente é "não desse mundo," nem "desse tempo," mas do "tempo que há de vir". Isto é o ser evangélico.

Além disso, o próprio Cristo pertence a essa comunidade, como Cabeça dela e não só como Senhor ou Mestre dela. Cristo não estava acima ou fora da Igreja. A Igreja está Nele. A Igreja não é meramente uma comunidade daqueles que acreditam em Cristo e andam em Seus passos ou em Seus mandamentos. Ela é comunidade daqueles que habitam, moram Nele, e em quem Ele próprio está habitando e morando pelo Espírito Santo. Os cristãos e as cristãs são colocados à parte, "nascidos de novo" e recriados e é dado a eles não só um novo padrão de vida como também um novo princípio: a nova vida no Senhor pelo Espírito Santo. Eles são um "povo peculiar", "o Povo da possessão do próprio Deus". O ponto é que a Comunidade Cristã, a ekklesía, é uma comunidade sacramental: um "companheirismo em coisas sagradas," isto é, no Espírito Santo, é a comunhão dos santos que não é medida apenas pela amizade e preferência que temos por uns ou umas.

A Igreja como um todo é uma comunidade sagrada (ou consagrada), distinguida por isso do "mundo". Ela é a Santa Igreja. São Paulo obviamente usa os termos "Igreja" e "santos" como co-extensivos e sinônimos. É notável que no Novo Testamento a palavra "santo" é quase que exclusivamente usada no plural, santidade sendo social no seu significado mais profundo. Pois o nome não se refere a nenhuma conquista humana, mas a um dom, uma graça de Deus. Santidade vem do "O Santo", isto é só de Deus. Ser santo para uma pessoa, significa partilhar da Vida Divina, ser santo significa praticar o que Jesus ensinou e amar com o radicalismo de Jesus, não apenas com as palavras, mas com as atitudes. A santidade está disponível para as pessoas "na comunidade do Espírito Santo." A expressão "comunhão dos santos" é um pleonasmo. Só se pode ser um "santo" na comunhão, na unidade, sendo evangélico, isto é seguindo os ensinamentos do evangelho praticando-os no dia-a-dia.

O ser evangélico é pertencer á uma comunidade "legitimada com o poder do alto," "batizada com o Espírito Santo (cf Lc 24, 49 e At 1, 4-5), no mistério do Pentecostes. Antes da vitória da Cruz revelada na gloriosa Ressurreição, ela estava ainda sob a sombra da lei. Era ainda a véspera da realização. E o Pentecostes aconteceu para testemunhar e selar a vitória de Cristo. "O poder do alto" havia entrado na história. O "novo tempo" tinha sido verdadeiramente revelado e iniciado. Ser evangélico é viver a continuação do Pentecostes. O Reino veio, pois o Espírito Santo é o Reino. Quem vive no Espírito de Jesus Cristo, quem segue Seus passos, praticando o que Ele ensinou, é evangélico e não o contrario. Na verdade no Espírito Santo, o próprio Senhor Glorificado vem de volta para habitar conosco para sempre (cf Jo 14, 18 e 28), evangélica é toda a pessoa que se abre para esta realidade e a pratica. O Pentecostes foi a consagração mística, o batismo de toda a Igreja. (cf At 1, 5). Esse batismo ardente foi administrado pelo Senhor: Pois Ele batiza "com o Espírito Santo e com fogo" (Mt 3, 11 e Lc 3, 16). Ele enviou o Espírito da parte do Pai, como uma garantia em nossos corações. O Espírito Santo é o espírito de adoção, em Cristo Jesus, "O poder de Cristo" (2Cor 12, 9). Pelo Espírito nós reconhecemos e confessamos que Jesus é o Senhor (cf 1Cor 12, 3) e nos esforçamos para vivermos em unidade.

Pelo Espírito Santo os cristãos e as cristãs são unidos com Cristo, são unidos Nele, são constituídos em Seu Corpo. Esta união dos diversos é a catolicidade: um Corpo, o de Cristo: essa excelente analogia usada por São Paulo em vários contextos, quando descrevendo o mistério da existência Cristã, é ao mesmo tempo a melhor testemunha para a experiência íntima da Igreja Apostólica, seu evangelicalismo, sua unidade. A união íntima das pessoas que tem fé com o Deus, e sua participação em Sua plenitude de vida é ser evangélico. Como em todos os seus escritos, São Paulo esteve empenhado em provar que as pessoas, na fé, estão em comunhão com Ele em todas as coisas (Col 3, 4), e precisamente para mostrar essa união ele fala da cabeça e do corpo. É muito provável que a expressão ou termo tenha sido sugerida pela experiência Eucarística, da Ceia (cf 1Cor 10: 17), e tenha sido deliberadamente usada para sugerir sua conotação dos que participam da Ceia, participam do Corpo do Senhor (cf Mt 26, 26; Mc 14, 22; Lc 22, 19; 1Cor 11, 24) e por isso são evangélicos. A Igreja de Cristo é unida, por isso é evangélica, na proclamação da Palavra e na participação da Ceia do Corpo e do Sangue do Senhor. A Palavra e a Ceia são o próprio Cristo, é Ele que habita na Igreja, que é Seu Corpo. A Igreja, "que é o Seu corpo, a plenitude Daquele que cumpre tudo em todos" (Ef 1, 23). A Igreja é o Corpo de Cristo porque ela é Seu complemento. A Igreja é o complemento do Cristo da mesma maneira pela qual a cabeça completa o corpo e o corpo é completado pela cabeça. Cristo não está sozinho. Ele preparou todas as raças em comum (a catolicidade), para segui-Lo (o evangelicalismo), aderir a Ele, acompanhá-lo e praticar o que Ele ensinou. Observemos como Paulo introduz Cristo como tendo necessidade de todos os Seus membros. Isso significa que só então a cabeça estará preenchida, quando o Corpo é tornado perfeito, quando estamos todos juntos, co-unidos e atados juntos, evangélicos na nossa catolicidade. Em outras palavras, a Igreja é a extensão e a plenitude da Santa Encarnação, ou melhor da vida Encarnada do Filho, com tudo que foi realizado por nós, Sua vida e obras, seu testemunho do Amor do Pai, a Cruz, o sepulcro, a Ressurreição ao terceiro dia, a Ascensão aos Céus, o Trono à direita do Pai, a vinda do Espírito Santo.

Concluímos que ser "católico" e ser "evangélico" são a mesma coisa, e sua união se dá no praticar o Evangelho de Jesus Cristo, que é na sua base, inclusivo.

Neste momento da história, rico em desejo de Deus, reconhecemos de novo nossa missão comum de testemunhar juntos Cristo nosso Senhor e, sobre a base da unidade que já nos foi doada, de ajudar o mundo para que creia, reconciliando-se consigo mesmo e com Deus, na inclusão. E peçamos com todo nosso coração ao Senhor que nos guie à unidade plena, a fim de que o esplendor da verdade, a única que pode criar inclusão, seja de novo visível no mundo.



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