O Diaconato na Igreja Cristã
por Pr. Gelson Piber, pastor na ICM de Niterói
Igreja da Comunidade Metropolitana do Brasil (www.icmbrasil.org)
Curso para Novos Membros da Igreja da Comunidade Metropolitana de Niterói, RJ: Módulo um
Os ministérios no Novo Testamento
Nos Evangelhos e nos outros escritos Apostólicos percebemos diferentes modelos nas organizações da Igreja segundo as culturas, situações e necessidades. Assim, por exemplo, a estrutura organizativa da igreja de Antioquia é diferente da igreja de Jerusalém: "Havia na igreja de Antioquia Profetas e Doutores" (At 13,1), enquanto que na igreja de Jerusalém funcionava uma espécie de colégio integrado pelos Apóstolos e pelos Presbíteros (cf At 15, 2).
Os Evangelhos nos falam dos "Doze" que Jesus elegeu "para conviver com ele e para enviá-los à pregar" (Mc 3, 14); Jesus quis que estes "Doze" continuassem Sua Missão; e os Apóstolos serão referência para a Igreja de todos os tempos e de todos os lugares, por isso falamos em "fé dos Apóstolos" e "Credo Apostólico", pois a comunidade cristã se remete "ao ensinamento dos Apóstolos" (At 2,42), eles são "os que dão testemunho da Ressurreição de Jesus" (At 4,33) e "convocam ao plenário (assembléia) dos discípulos" (At 6,2) e das discípulas.
Nas cartas de Paulo aparecem "Apóstolos, Profetas e Doutores", que com os evangelizadores, anunciam a Boa Nova e organizam as distintas comunidades (1Cor 12,28; Ef 2,20; 3,5; 4,11; 2Tm 4,5). Em cada uma dessas comunidades há o serviço de governo: "dirigentes" (Hb 13,7; 13,17; Lc 22,26), "o que preside" (Rm 12,8; 1Tes 5,12), "Presbíteros" (At 14,23; 15,2), "Bispo" (At 20, 28; Fl 1,1; 1Tm 3,1-7), "Diácono" (1Tm 3, 8-13; Fl 1,1). Em outro âmbito estão os "Profetas" e "os que ensinam" (Ef 4,11; At 13,1). Não nos é dito como eram estabelecidos ou conferidos estes ministérios, mas eles eram considerados "dons do Espírito Santo" (At 1,15-26; 13,2; 20,28; 1Cor 12,28), ou "dons do Senhor" (Ef 4, 8-11; 1Tm 4,14; 2Tm 1,6).
Algumas passagens podem evocar uma liturgia de instituição, segundo Atos 6,1-3, a comunidade elege sete homens para o serviço da mesa (diáconos), e os Apóstolos, orando sobre eles, impõem as mãos. E a comunidade de Antioquia enviou a Paulo e Barnabé para evangelizar, "Depois de ter jejuado e orado, os Profetas e Mestres impuseram as mãos sobre eles" (At 13,3-4). Na Primeira Carta de Paulo à Timóteo 4,14, se fala de um carisma ou ministério recebido mediante a imposição das mãos "do colégio dos presbíteros".
Nos Atos dos Apóstolos, o servir e o evangelizar são a mesma coisa e as Cartas de Paulo acentuam os ministérios para assegurar o bom andamento da comunidade, Tito 1,5 recomenda que se instituam Presbíteros e na Primeira a Timóteo 5,22, Paulo recomenda que "não se imponha as mãos a ninguém precipitadamente". De qualquer maneira, os ministros (e as ministras) são membros da comunidade e para o serviço da comunidade.
Toda a Igreja é ministerial
Na percepção da Igreja como sinal histórico e eficaz do Reino de Deus, todos os batizados e batizadas, cada um com o dom que recebeu, tem que prestar esse serviço evangelizador. É uma vocação ministerial comum a toda a Igreja e a cada pessoa dentro dela, cada pessoa com seu carisma e ministério particular.
Somos chamados por graça e misericórdia de Deus que transforma nossos corações e mentes e não por nossos méritos pessoais, na nova comunidade de Jesus Cristo contam os que socialmente nada valem; a esta nova comunidade Jesus Cristo chamou de Reino de Deus, que como semente, cresce em nossa terra.
A Igreja é, assim a reunião de homens e mulheres que, convocados por Deus, escutaram a Boa Nova e se deixaram transformar por ela, para transformar, por sua vez as relações humanas, o Reino ainda não se estabeleceu, mas a Igreja é o desejo, o anseio de que ele venha com Sua plenitude. Por isso a Igreja só tem sentido com pessoas que desejam se transformar, mudando suas relações egoístas para relações de doação, de justiça, de paz e de amor. Toda a Igreja é sacerdotal e ministerial, isto é toda a Igreja adora e serve, um Serviço a Deus que se dá nas pessoas, uns com os outros. Todo o batizado e toda a batizada é chamado e chamada a servir, com alegria, sem serviço desinteressado, não tem sentido nenhum ministério.
Viver e compartilhar como irmãos e irmãs é o primeiro e maior chamado, "Aperfeiçoando assim os santos para a obra do ministério a fim de construir o Corpo de Cristo", diz Efésios 4, 12; por isso, "o dom que cada um recebeu, ponha a serviço dos outros como bons administradores da multiforme graça de Deus" (1Pe 4,10); "vos sois o corpo de Cristo e seus membros" (1Cor 12,27); "há muitos membros, mas o corpo é um só; não pode o olho dizer a mão: não tenho necessidade de ti; nem tampouco a cabeça aos pés: não necessito de vocês" (1Cor 12,20-21).
Para bem anunciar o Evangelho e servir, deve-se ter uma vida de humildade, no serviço aos irmãos. Ser honestamente humilde, tem uma repercussão evangelizadora e transformadora em um mundo em que o que vale é a lei do mais forte e do que mais tem. A vida interna da Igreja, da comunidade, deve ser por si só a boa noticia, a atração para os que estão fora e o maior testemunho que podemos oferecer.
Povo Sacerdotal
O termo "sacerdote" designa a mediação entre Deus e os homens, e o único mediador é Jesus Cristo. Porque a Igreja, constituída por todos os batizados e por todas as batizadas é o Corpo de Cristo, todos os cristãos e todas as cristãs são também sacerdotes, mediadores, tem acesso a Deus na oração e na vida. Todo o cristão e toda a cristã que ora e serve é sacerdotal, recriando a história de Jesus, colocando em prática Suas Palavras, atuando em justiça e santidade, "oferecendo sacrifícios espirituais aceitos por Deus em Jesus Cristo" (1Pe 2,5).
No Novo Testamento há outras palavras: Bispos e Bispas, Pastores e Pastoras (Presbíteros?), Diáconos e Diaconisas, que se referem ao ministério=serviço de quem preside, coordena ou presta um serviço específico necessário à comunidade. Estas pessoas são antes de tudo e finalmente, membros do Povo de Deus, que é o Povo Sacerdotal, a peculiaridade destes títulos não está em ser uma classe a parte dos outros cristãos ou das outras cristãs, mas sim na função: sinais e instrumentos para que a comunidade viva, atualize e celebre sua condição sacerdotal e mediadora em Jesus Cristo, pelo Espírito Santo. Em uma comunidade sacerdotal, algumas pessoas têm funções de serviço diferenciadas, só isso.
Todos os batizados e todas as batizadas recebem do Espírito de Jesus Cristo e são um e uma com Ele e tem acesso a Deus, por isso orientamos nossos projetos seculares e "mundanos", conforme a Lei do amor do Evangelho, procurando recriar, a cada dia a conduta de Jesus, tornam-se o novo povo sacerdotal que oferece um culto verdadeiro (1Pe 2,9; Rm 12,1).
Os ministérios na Reforma de Martinho Lutero
Nós somos frutos da Reforma, pois nossa liberdade de concebermos uma igreja, a partir de nossa experiência pessoal é conseqüência das idéias defendida por este Reformador da cristandade. E, para compreendermos o como a Reforma compreendia os ministérios na Igreja, devemos reler, sobretudo os três tratados nos quais ele aborda mais especificamente o "sacerdócio cristão":
À nobreza cristã da nação alemã,percebemos neles sua crítica fundamental aos que usurpam a liberdade para a qual o povo cristão está destinado pela obra de Jesus Cristo, dominando e explorando; e lendo estas críticas feitas à uma situação especifica para o final decadente da Idade Média, percebemos que ela continua válida para atuais denominações contemporâneas, "evangélicas" e continua sempre necessária.
Do cativeiro babilônico da Igreja,
Como instituir ministros na Igreja,
Para Lutero, e para nós também, Jesus Cristo venceu a morte e pagou por todos os pecados dos e das que crêem, todas as pessoas tornaram-se "raça eleita" e dignas de serem chamadas "sacerdotes".
A base fundamental da Reforma eclesiástica de Lutero é o sacerdócio geral de toda a pessoa crente, a partir desse principio não existe mais distinção entre a pessoa leiga e a clériga, mas todas são iguais, com os mesmos direitos e responsabilidades no que diz respeito a Igreja e diante de Deus: "as obras do clero em nada se distinguem das do lavrador ou da dona de casa, mas diante do Senhor, são todos medidos somente pela fé", afirmou.
Esta igualdade entre as pessoas não é mérito ou conseqüência do empenho ou da justiça das mesmas, mas é por causa de Cristo, de Seu amor e de Sua obra em favor da humanidade. Pois Cristo eliminou todas as obras de sacrifício e se tornou o único sacerdote, o mediador definitivo entre Deus e os seres humanos (cf Jo 14,6; 5,19-46), "Ele também fez sacerdotes todos os Seus Apóstolos e discípulos (e discípulas), sem máscaras", diz Lutero.
Por isso, o ministério na Igreja não pode ser apropriado por uma casta de clérigos, sejam Bispas, Bispos, Reverendos, Reverendas, Pastores, Pastoras, Diáconos, Diaconisas... Ninguém pode assumir responsabilidades e direitos que pertencem a todas as pessoas cristãs e isto não é invenção de Lutero, ela se fundamenta nas Escrituras, sobretudo na Primeira Carta de Pedro 2,9: "Vós, porém, sois uma raça escolhida, um sacerdócio régio, uma nação santa, um povo adquirido para Deus, a fim de que publiqueis as virtudes daquele que das trevas vos chamou à sua luz maravilhosa." 1 São Pedro 2,9, e em Apocalipse 5,10: "...E deles fizeste para nosso Deus um reino de sacerdotes, que reinam sobre a terra".
Através de Sua obra, Cristo tornou-nos co-herdeiros, de forma que "no Novo Testamento não faz sacerdotes, ele nasce; não é ordenado, mas criado. No entanto, não nasce por nascimento da carne, mas do Espírito, no batismo". "Nascemos e somos chamados à este ministério no batismo", diz Lutero. No batismo é o próprio Deus que atua e realiza sua obra na pessoa que recebe o titulo de sacerdote e torna-se capaz de realizar as obras a partir da fé na graça operante.
É por isso que Lutero afirma que "entre os cristãos, cada um é juiz do outro e, inversamente, também sujeito ao outro".
A ênfase dada por Lutero no sacerdócio geral, não invalidou para ele, nem para nós, a necessidade de ofícios=serviços eclesiásticos e de uma estrutura na Igreja, mas Lutero opõe o sacerdócio geral ao clero, quando este manipula o Evangelho, oprimindo e explorando o povo e também, ele insiste em uma ordem para reagir ao individualismo e ao "espiritualismo" dos entusiastas e seus exageros, ele criticou os "que ensinam o que querem. Num lugar se prega isso, noutro aquilo. Não são poucos os que, sob falso título de sacerdotes, enganam o povo". Para garantir a ordem no culto e na comunidade, Lutero reafirma a necessidade de ministros, insistindo que, "cada qual observe a ordem e o oficio recebido e se dedique a ele", pois "queremos ater-nos aos ministérios e mandatos instituídos", "por causa em nome da Igreja, muito mais, porém, por causa da instituição de Cristo".
Os ministérios na comunidade, dons do Espírito Santo, são para edificar a comunidade. É Deus quem dá os diferentes dons para as pessoas cristãs, vocacionando-as para exercerem os ministérios de edificação da comunidade e da Igreja através da Palavra.
Mas e o Diaconato?
O Testemunho do Novo Testamento e da Igreja Primitiva, nos mostram os Diáconos como os servidores da mesa, administradores, responsáveis pelas obras de caridade, coordenadores da ordem da assembléia, animadores da comunidade, servidores dos Bispos e dos Pastores. No inicio da Idade Média, já é, deturpando-se, a função litúrgica que predomina sobre as outras, ou seja, eles passam a ser os auxiliares dos bispos das celebrações litúrgicas, é assim que eles chegaram até nós nas igrejas que não pertencem a Reforma.
Mas sua origem está nos Atos dos Apóstolos 6, 1-6 onde se menciona a forma de escolha, instituição, e, sobretudo as virtudes requeridas: uma caridade sincera, cuidado com os doentes e fracos, apoio e amparo aos pobres seguindo o exemplo de Jesus Cristo que se fez humilde e todo caridade.
Se todo o cristão e toda a cristã é chamado a se fazer servo ou serva de seus irmãos, o Diácono ou a Diaconisa deve sê-lo de modo especial; por isso recebe uma instituição que o habilita aos serviços especiais e mais numerosos. O título de Diácono ou de Diaconisa, quer dizer, simplesmente: o ou a que mais serve.
Enquanto que o Bispo, a Bispa, o Pastor ou a Pastora, são instituídos para o ensino, o Diácono e a Diaconisa são instituídos para o serviço, não exercendo uma função de governo, mas ele ou ela não é apenas mais um membro da comunidade, mas sim um representante de Cristo diante da comunidade, representação esta que se manifesta no serviço, capaz de agir na comunidade e para com ela, em nome de Cristo. O Diácono ou a Diaconisa é sempre um representante da comunidade, diante de Deus e da comunidade mesma.
Por isso, o cristão e a cristã que exerce o diaconato, na comunidade, deve ser o primeiro ou a primeira no ser e fazer a comunidade e no serviço da comunidade. Enquanto a Bispa, o Bispo, o Pastor e a Pastora, estão na frente, o Diácono e a Diaconisa estão na retaguarda, atentos, para melhor servir.
Bibliografia: