A DIVINA COMÉDIA DO NATAL:
(Is 40, Lc 1 e 1 Co 1).
Por Ciro d'Araújo
Lucas 1:51-52
“Agiu com a força de Seu braço, dispersou os homens de coração orgulhoso. Depôs poderosos de seus tronos, e a humildes exaltou.”
Essas palavras são encontradas na canção de Maria ao encontrar Isabel. Nossa tradição cristã costuma interpretar tais palavras numa categoria de pecado e salvação, porém nós nos esquecemos de como essas palavras são absurdamente cômicas porque romantizamos e desumanizamos os personagens bíblicos no nosso imaginário.
Pense bem. Essas não são palavras faladas por uma princesa! São de uma menina absolutamente desconhecida de uma pequena vila completamente sem nenhuma importância numa província remota do império Romano. Mesmo que as genealogias de Jesus tracem sua linhagem Davídica, elas o fazem através de José e não Maria, e mesmo assim não seguem o tronco que formou a dinastia reinante. E tais palavras não são tão absurdas quanto à pessoa a quem elas estão sendo ditas! No início do primeiro capítulo nós somos apresentados a Isabel que é uma velha senhora, esposa de um sacerdote e estéril. Tal sacerdote tem uma visão de um anjo que o avisa de que vai ter um filho com sua mulher já velha. Ele obviamente não acredita e emudece, ficando incapaz de falar a respeito da visão. Lembre-se que mudez era associada a demência mental e era um sinal de incapacidade para o serviço do templo. Sua mulher engravida e o texto em Lc 1:24 diz que se manteve oculta por 5 meses – possivelmente pela vergonha de aparecer grávida de um mudo (ou pela possível suspeita de que não fosse o mudo que a tivesse engravidado...). Essa história também nos remete a uma outra semelhante e igualmente cômica contada no livro de Gn 18:9-16 e depois retomada em Gn 21:1-7. Sara é mais honesta do que a maioria de nós, e mesmo assim mentiu a respeito de seu riso, por vergonha. A reação honesta ao ouvir tamanho absurdo, contudo, é essa: rir. E o nome escolhido para a criança nascida foi Itzhack “Riso” (atualmente talvez fosse “Fala sério...”), afinal de contas, é um filho do absurdo – da disparidade entre a palavra dita e o emissor dessa palavra. E absurdo é um tema absolutamente recorrente na bíblia. (Davi, o pequeno, se torna rei. Saul, ao ser ungido, foge! Israel é escolhido para ser o povo de Deus. Tudo extremamente cômico) e nisso a bíblia se contrasta profundamente com as histórias sagradas de outras religiões.
Posteriormente o filho de Isabel vai ser visto como um “herói” dos evangelhos, o maior de todos os profetas, ou talvez o maior dos palhaços, dependendo do ponto de vista, e ele é sem dúvida uma figura engraçada. Come gafanhoto, veste pele de camelo, e se alimenta de mel silvestre e é estranho até mesmo para os pescadores-discípulos de Jesus!
Essas palavras de Maria fariam todo o sentido como uma profecia para uma figura mítica de um herói. Porém Jesus não é e nunca foi um nobre herói e talvez fique interessante nós observarmos as diferenças entre as histórias do nascimento nas tradições Cristãs e Budistas.
Para o Budista, o natal é altamente mítico cheio de drama e heroísmo. O Buddhacarita afirma que o Buda nasceu no Clã Shakya que é descrito como sendo “inconquistável”, filho de uma “bela rainha semelhante à deusa Sachi” e nasceu em berço de ouro para uma vida de luxos e confortos. Depois de passar por 500 encarnações prévias e ter feito inúmeros prodígios, ele entra o útero da princesa Maya na forma de um elefante branco. Quando o tempo do nascimento chegou, a princesa se afastou para um confortável jardim de retiro e foi servida por uma corte de milhares de damas de companhia e parteiras. O jardim foi provido de flores, frutas e nozes. E ao ficar em pé debaixo da maior das arvores do jardim, ela deu a luz sem dor ou desconforto a um filho radiante cuja pele brilhava como o ouro. A criança foi colocada numa teia de fios de ouro e carregada por anjos e o seu nascimento foi acrescido de muitos sinais e maravilhas. E imediatamente o infante Buda se levanta em sua rede, olha para as quatro direções e declara: “Eu nasci para ser Iluminado para o beneficio de todo o mundo. Este é o meu último nascimento”.
A história do Natal Cristão é bastante diferente! Em contraste com o nascimento nobre e aristocrático, nós temos a mulher de um carpinteiro de uma cidade pobre e de cuja fama mesmo entre os seus conterrâneos nos é mostrada pela frase: “Poderá algo de bom sair de Nazaré?” (Jo 1:46) Não existem damas de companhia e parteiras, nem serviçais no nascimento de Jesus que acontece em um estábulo atrás de uma hospedaria lotada. No lugar de uma rede de fios de ouro, nós temos uma manjedoura (que significa literalmente o local onde os animais comem). A tradição medieval chega a fazer alusão a isso numa canção litúrgica que diz: “Ó grande mistério e admirável sacramento, os animais testemunharam o nascimento do Senhor deitado numa manjedoura”. E mesmo no relato de Mateus, quando os Sábios do Oriente vem procurar o Rei recém-nascido, ele vão ao lugar onde seria mais natural para se encontrar um rei – o palácio do Rei. E lá não o encontram, mas sim no lugar mais improvável. E os efeitos dessa visita não são exatamente beneficiais para a família de Jesus – Maria e José são forçados a fugir com Jesus para o Egito para escapar ao massacre de Herodes.
Em Mateus e Lucas nós vemos um esforço para nos assegurar a legitimidade do Jesus Messias colocando-o como descendente de Davi (através de José e não de Maria – já algo meio cômico). Alias, a narrativa de José é uma narrativa cômica. Imagine só: sua noiva está grávida e você sabe que não é você o pai. Como a ama, não quer estardalhaço público e pensou em deixá-la em segredo, assumindo para si a culpa. Recebe, então, uma revelação na subjetividade de um sonho. Quantos de nós, se alguém nos contasse tal história, não riríamos da cara do sujeito, pensando algo como corno manso?
Em nossa civilização Ocidental nós nos preocupamos muito com poder, grandiosidade, sabedoria e prestígio. Os nossos heróis são aqueles que chegaram ao topo e nosso único valor é “para o alto e avante!” Porém isso é radicalmente diferente da tradição Bíblica e de fato nós tentamos corromper a tradição Bíblica, tentando encontrar nela as nossas marcas de heroísmo, e o povo Cristão nem ao menos percebe essa contradição.
Se nós medirmos a tradição Bíblica pelos nossos critérios de sucesso e importância, então a Bíblia é uma coleção de histórias e leis de um povo absolutamente inexpressivo e sem importância de pessoas inexpressivas e sem importância. Muitos fundamentalistas tentam se entusiasmar com as descobertas arqueológicas que provariam que “A bíblia tinha razão” mas a atual arqueologia começa nos mostrar que mesmo a “Glória de Salomão” não eram lá essas coisas (e deve-se lembrar que mesmo essa pequena glória foi o que trouxe a desgraça dele na tradição bíblica). Quanto mais olhamos para o passado, mais temos a sensação de que isso tudo é uma grande contradição, a não ser que olhemos através do olhar que Paulo nos mostra em 1 Co 1:26-30. “Vede, pois, quem sois, irmãos, vós que recebestes o chamado de Deus: não há entre vós muitos sábios segundo a carne, nem muitos poderosos, nem muitos de família prestigiosa. Mas o que é loucura no mundo, Deus o escolheu para confundir os sábios; e o que é fraqueza no mundo, Deus o escolheu para confundir o que é forte; e, o que no mundo é vil e desprezado, o que não é, Deus escolheu para reduzir a nada o que é, a fim de que nenhuma criatura possa vangloriar-se diante de Deus. Ora, é por ele que vós sois, em Cristo Jesus, que se tornou para nós sabedoria proveniente de Deus, justiça, santificação e redenção”.
O tema desse texto pode ser sintetizado assim: Os escolhidos de Deus não são aqueles que tem mais a oferecer, mas sempre aqueles que não tem nada a oferecer além de si mesmos.
Aqui nós temos o tema básico da nossa comédia da salvação! Afinal de contas, quem são as pessoas que aparecem na história bíblica? Certamente não são aqueles que eram o centro da atenção do mundo da época, esses aparecem, no máximo, como figuras periféricas. Não é Faraó (que a bíblia nem se digna a dar um nome) a figura central, mas sim o assassino, filho de escravo, Moises. Não é Ciro a figura central, mas sim o sacerdote Esdras e o copeiro Neemias. Não é Nabucodonozor a figura central, mas sim o eunuco Daniel. Em termos coletivos, a Assíria, a Babilônia e o Egito são vistos como peças periféricas que Deus usa para punir o povinho absolutamente miserável que é Israel. E continuando no Novo Testamento. Não é César, ou mesmo seus representantes nas pessoas de Herodes ou Pilatos, a figura principal, mas sim Jesus. E mesmo dentro da Igreja primitiva, não são os apóstolos principais que se tornam a figura central no desenvolvimento do cristianismo, mas sim um que nunca andou com Jesus em carne, mas sim que perseguia os cristãos! A história bíblica é sempre uma história de profunda inversão! De fato os nossos heróis bíblicos seriam um bloco carnavalesco de joões-ninguém e seus profetas que não apareceriam em carros alegóricos nem em posição de destaque.
Na tradição bíblica nós temos um mundo que está de cabeça para baixo. Todos os valores e medidas humanas de grandeza e importância são relativizados ou destruídos. Na Bíblia nós temos uma profecia que diz que “todo o vale será exaltado e toda montanha aplanada”. O mundo bíblico é o mundo do Reino de Deus que Jesus nos conta em suas parábolas. É o mundo em que os vagabundos são levados a um banquete real, é um mundo em que os servos aparecem em vez de seus mestres, é um mundo em que Maria, introvertida e pacata, é exaltada e a sempre ativa e extrovertida Marta recebe uma palavra mais dura. É também um mundo em que os antes excluídos são incluídos, um mundo em que os plebeus são reis, e os mansos herdarão a terra! Esse é um mundo em que a viúva que dá duas moedas é mais feliz do que o fariseu que dá de sua sobra. É um mundo em que as crianças se sentem mais à vontade do que os adultos e é também um mundo em que os publicanos e pecadores se encontram com mais facilidade do que os sacerdotes e doutores da lei.
Isso não é simplesmente uma troca de “para baixo e atrás”, mas sim uma destruição de toda espécie de valor para que aconteça o grande tema da salvação que é a inclusão de TODOS! Todas as ordens de valores humanos são desafiadas nesse mundo bíblico, pois afinal de contas nenhuma ordem é completa e final em si mesma. Então todo vale é exaltado e toda montanha aplanada, para que Todos possam ser incluídos nessa dispensação da graça (Is 40:4-5), e a promessa é de fé e inclusão, seja lá qual for a circunstância como vemos em Isaias 40:28-31.
“Não o sabes? Não ouviste dizer? O Senhor é o Deus Eterno, criador das extremidades da terra. Ele não se cansa nem se fatiga, sua inteligência é insondável. Ele dá força ao cansado, que prodigaliza vigor ao enfraquecido. Mesmo os jovens se cansam e se esgotam; até os moços vivem a tropeçar, mas os que põe sua esperança no Senhor renovam as suas forças, abrem asas como as águias, correm e não se esgotam, caminham e não se cansam”.
Essa é a mensagem da Comédia Divina Bíblica. Independentemente de qualquer circunstância ou condição, seja você como for, se você estiver disposto a lançar fora o medo que te aprisiona e colocar sua confiança no Senhor e no bem que ele tem para você, então ele está sempre disposto fazer nascer dentro de você o fruto do Espírito Santo. A única condição é a fé, a total e absoluta confiança nesse Deus que tem o melhor para você e para mim.
Minha oração é que possamos ser como Maria nesse Natal, lançando fora o medo e apesar de todas as circunstâncias cômicas em torno de nós possamos cantar e magnificar ao Senhor com nossa alma porque ele realmente tem feito grandes maravilhas em nossa vida e através de nós, por mais incrível que isso possa parecer, e que possamos encontrar, nos lugares mais incríveis e absurdos, o EMANUEL – Deus Conosco.
Sobre o autor: Ciro d'Araújo é um cantor de ópera profissional no Rio de Janeiro e também estudante de Teologia na Universidade Bennett e Facilitador de Implantação de Igrejas para o Brasil. Ciro está iniciando o processo para se tornar estudante para ser clérigo da ICM.