A PRÁTICA DE JESUS E OS TEMPOS ATUAIS
Reverendo LUIZ FERNANDO PEREIRA GARUPE
IGREJA COMUNITÁRIA METROPOLITANA - COMUNIDADE EMAÚS
SÃO PAULO - BRASIL
Jesus anunciou a sua novidade em determinado país e num determinado contexto. No período histórico em que a transmitiu, a noção de Reino era ligada à fecundidade, à verdade e ao poder. Eram estes, ao que se supunha, atributos inerentes à pessoa do rei. O apocalipsismo, fruto de uma situação de miséria bastante generalizada, centrava em Deus a esperança do futuro, sem participação do ser humano. Era uma visão a-histórica, verticalista, alienada. João Batista, pregador apocalíptico, supunha estar próximo o juízo de Deus. Nao havia, no seu entender, tempo para mudanças e reformas sociais.
Para Jesus, a proximidade do Reino situava-se em noção diversa do tempo: O tempo de Deus, cuja consumação somente Deus conhece.
Hoje, vivemos realidades diferentes. A visão de mundo é outra. O contexto mundial difere profundamente daquele em que Jesus atuou. Isto posto, a fidelidade a Jesus pressupõe a leitura dos tempos. Ler "os sinais dos tempos" é recomendação cuja importância ele próprio realçou. Ser fiel a Jesus, aderir ao seu projeto, é imitar-lhe o dinamismo inovador, sem contudo repetir sua prática como "xerox" ou cópia exata. Para ser fiel a Jesus é preciso ser diferente.....de Jesus. Importa ajustar os seus ensinamentos à realidade atual. Isto supõe, inclusive, revisão semântica de certas expressões, cujo sentido mudou, como a própria palavra "Reino". A realiza, hoje, traduz um poder simbólico, fator de unidade nacional, com raízes profundas em tradições. Configura um sentir comum, com sua pedagogia, suas falhas e contra-sinais.
Os preteridos de hoje são outros. Já não é samaritano, nem são os que exercem profissões consideradas desprezíveis, nem os pagãos. E o são, as mulheres e as crianças, minorias étnicas, minorias sexuais. Discriminados hoje são os agricultores sem terra, certas minorias, negros, gays, lésbicas, travestis, os marginais do processo tecnológico. E continuam sendo discriminados os pobres, em termos de indivíduos, de grupos, de Terceiro Mundo.
Ser fiel a Jesus, hoje, é ser diferente de Jesus em sua prática de ontem. Urge que se adapte a linguagem bíblica ao nosso tempo, sem agravo ao depósito da fé. Para tanto, haja criatividade e coragem de inovar, sem danos à integridade da mensagem, sem distorções ou supressões. E a Boa Nova nao se tivesse "inculturado" no mundo grego, romano e germânico seríamos hoje considerados "incircuncisos" e pagãos, ou cristãos judaizantes (cf At. 6:1).
Algumas atitudes de Jesus são válidas para qualquer contexto histórico, porque espelham valores perenes e imutáveis. Cite-se apenas, para exemplificar, a libertação das vítimas de sentimentos de culpa subjetiva a sua fé inabalável na vitória do bem sobre o mal.
Em lugar da fé em Jesus, saliente-se e vivencie-se a fé de Jesus!
É uma questão de coerência. Os adversários e críticos nunca acusaram os cristãos de seguirem Jesus; pelo contrário, os acusaram de não o seguirem, de ter traído sua causa, de ter adotado tudo o que Jesus denunciava como farisaísmo (cf. Mt 23:1-16). "Este povo me venera com os lábios, mas seu coração está longe de mim" (Mc 7:6).
Deus não substituiu o ser humano na realização histórica, mas ao contrário, compromete-o e o envia à ação até suscitar nele uma permanente disposição à rebeldia e luta perante seus opressores. Esta é a raiz dos profetas e mártires.....
O autor desta material é Reverendo Luiz Fernando Pereira Garupe da Igreja Comunitária Metropolitana - Comunidade Emaús, São Paulo, Brasil.